domingo, 1 de novembro de 2009

Devaneios

Na dúvida entre mergulhar na vida ou me esconder embaixo da cama, acabo não fazendo nem um nem outro. Eu não quero arrumar o quarto e nem deixar curar esses machucados. Me sinto bem com a bagunça do lado de fora, ela me faz pensar que algo além de mim também está em desordem. Não sei como é que vim parar aqui. Há tempos grito pelo seu socorro mas você não pode me ouvir. É como se eu estivesse em uma sala de vidro, gritando e te chamando em desespero, mas você não vê. Você está ali, bem na minha frente, mas não me vê gritar porque está olhando para o lado, distraído, vendo a menina ruiva ir embora. O vidro é forte demais e eu não consigo quebrá-lo para poder te abraçar. Por mais que eu bata não adianta, você não ouve som algum, e se encanta com tudo quanto possa existir do lado de fora. Eu poderia domir agora, eu deveria, meu corpo me diz que eu preciso dar descanço ao meu choro. Mas numa teimosia infantil eu não prego os olhos e fico aqui esperando alguma coisa acontecer. A porta se abrir, o telefone tocar, uma luz se apagar, o tempo passar e você não aparecer. Você e seu maravilhoso pênis. Sexo, sujeira, suor, saliva. Eu quero mais. Mais sexo? Sexo sexo sexo. Eu quero mais! Mais sexo? Não, mais do que isso. Mais do quê? Nada. Só mais sexo. Seu rosto está em todo lugar, seu nome está em todo final. Por que é que você me deixa te amar? Me manda logo embora. Não acredito que te supro tão bem as necessidades físicas mesmo. Às vezes acho que você gosta é de outra coisa. Me desculpe, desculpe por ter falado isso, eu sei que não é verdade. Eu quero acreditar que não é verdade, e que mesmo o meu falar desenfreado, porém carinhoso, lhe faz falta quando não está. Como você diz. Mas e se eu for embora? Porque digo, eu estou indo. Não, quer dizer, não agora, mas algum dia hei de ir. E você vai continuar aí dormindo enquanto bolo declarações de amor? Não sou muito acostumada ao amor e confesso que declará-lo sempre me causa certa estranheza, mas tem se tornado cada vez mais inevitável dizer. Eu te amo. Eu pedindo tão pouco e oferecendo tanto. Acho que é natural para quem nunca teve nada. Um dia, dois, três... eles se passam deitados nessa cama e eu já não sei mais se é frio ou calor, se é noite ou dia. As costas doem por causa desse travesseiro de penas de ganso que nunca foi nada do que eu sempre esperei de um travesseiro de penas de ganso. Esses comprimidos que não quero que acabem me tiram o sono e me fazem ranger os dentes. Não me lembro se já tomei todas as doses de hoje, talvez eles também me afetem a memória, mas não quero que acabem. Por via das dúvidas, vou tomar mais uma dose. Eu não ligo mais pro sono, deixa ele não vir. Assim eu tenho mais tempo pra não realizar tudo o que preciso. Começou a trovejar e relampejar lá fora. É o tempo se adequando ao meu sentimento. Queria que você entendesse que seu coração pode bater mesmo tendo sido arrancado do seu peito, não sei mais como te mostrar isso. Acho que vou me esconder embaixo da cama.

3 comentários:

Analu Oliveira disse...

"Eu te amo. Eu pedindo tão pouco e oferecendo tanto."

o desequilibrio de quem ama começa assim!

Igor Reyner disse...

Pois eu prefiro (preciso) deixar tudo em ordem do lado de fora, me faz pensar que o lado de dentro também está em ordem.

Andréa disse...

Eu adoro ficar embaixo da cama!!